[RM] – Gerenciando Riscos dos Projetos com os Incas em Machu Picchu! #0

Durante nossa vida estamos sempre planejando algo. Queremos viajar, reformar a casa, comprar um imóvel ou voltar a estudar. Nestes momentos também pensamos nos problemas que vamos enfrentar para atingir estes objetivos. Mas fazemos o que com este conhecimento? Será que acompanhamos ao longo do nosso projeto, nosso sonho, ou apenas nos preocupamos no início com estes problemas e nunca mais olhamos para eles?

Assim ocorre na maioria dos Projetos. Identificamos no início alguns riscos no nível macro e as vezes até traçamos alguns planos, algumas ações ou gatilhos caso eles ocorram mas o monitoramento, a gestão destes riscos acaba ficando esquecida em uma TAP, um PGP ou em algum documento qualquer dos primeiros dias do projeto. Verifique nos seus últimos projetos quantos problemas você encontrou no final e que foram notados no começo e nenhuma ação foi tomada, ou ainda quantos problemas novos surgiram por falta deste acompanhamento.

Pensando nisso começo esta série de artigos sobre Gerenciamento de Riscos (RM – Risk Management). Nesta série vou abordar diversos assuntos relacionados ao Gerenciamento de Riscoscomo agir proativamente em relação aos riscos dos seus projetos, utilizando técnicas e ferramentas tradicionais e ágeis tanto para identificá-los como para monitorá-los, além de passar algumas experiências ao longo dos artigos.

 

Machu Picchu – Gestão de Riscos através dos séculos!

Neste feriado realizei o sonho de conhecer Machu Picchu, onde aproveitei para gravar este vídeo para abrir esta série de artigos, confira!

Machu Picchu é um exemplo de projeto de arquitetura que sobreviveu aos séculos graças à uma espetacular gestão dos riscos!

Machu Picchu – Um pouco de sua história

Se você falar para um engenheiro que precisa construir uma cidade no topo de uma montanha, em um lugar de difícil acesso, no meio de duas falhas geológicas, certamente ele diria que é algo impossível (ou muito caro). Porém a equipe de construção dos incas fizeram isso já no século XV, seguindo ordens do imperador Pachacuti

Em 1438 os guerreiros Chanka lançam um ataque contra seus vizinhos, os Incas. Com os inimigos nos portões, o velho imperador inca busca refúgio. Mas seu filho, provocador e incentivado por uma ‘visão de vitória” conduz os incas à um confronto impossível. Eles conseguem vencer e os incas dão um novo nome ao filho do imperador: Pachacuti, que significa “transformador da terra”.

Aproveitando a fama e o poder de seu pai, lança uma campanha para conquistar nações vizinhas. As forças militares de Pachacuti rapidamente prevalecem e durante sua vida lança as fundações para um império que se estende por toda a costa do pacífico. Alguns o comparam como o “Alexandre – O Grande dos Incas”. Atingiu o comando e lealdade de aproximadamente 10 milhões de pessoas.

Pachacuti ordena com isso uma série de projetos de grandes construções para ajudar seu exército a controlar este vasto território. Porém isso é apenas o começo: Pachacuti queria construir uma cidade espetacular para demonstrar o poder do seu novo status. 

Machu Picchu tinha capacidade para acomodar 1000 pessoas, foi construída no alto da cordilheira dos andes, cerca de 160 km de distância do centro do seu império. A cidade está localizada no vale Urubamba no Peru, a 2450 metros de altitude e considerada o símbolo do império Inca. Suas características arquitetônicas surpreendem pela inovação e planejamento considerando as questões ambientais. 

 

O Processo de Gerenciamento de Riscos

Podemos inicialmente simplificar o processo de Gestão de Riscos em 6 etapas

  1. Quais são as regras? Como pretende conduzir a gestão de riscos? (Plano de Gerenciamento de Riscos)
  2. Quais são os Riscos? (brainstorm, identificação dos riscos)
  3. Quais os mais importantes? ( qualitativa/quantitativa)
  4. Como afetam o projeto como um todo? (causa, efeito, impacto, custos, prazos, vidas)
  5. Como enfrentá-los? (plano de ação, mitigação, aceitação, acompanhamento)
  6. Não deixe a ‘peteca’ cair! (monitoramento)

Falando especialmente do ítem 4: Como os riscos afetam seu projeto como um todo? Como os riscos de se construir uma cidade como Machu Picchu, no local escolhido, afetará o projeto se um deles acontecer? Será que podemos ignorar e começar a construir sem nenhum critério ou análise da região? Quantas obras você já viu começarem e até mesmo terminarem e na primeira chuva tudo ser destruído?

 

Machu Picchu – O Segredo da Longevidade de sua Construção

Imagine construir uma cidade, de pedra, entre duas montanhas e entre duas falhas geológicas. Uma região que sofre constantemente com terremotos e, o mais importante: Constantes chuvas o ano todo! O maior desafio para qualquer construtor neste cenário será evitar que tudo isso desmorone.

Alguns historiadores atribuem a longevidade da construção ao seu sistema de drenagem. Criaram um sistema de capas de pedras trituradas e rochas para evitar o empoçamento da água das chuvas. Criaram 129 canais de drenagem que se estendem por toda a área urbana, desenvolvidos para evitar a erosão, desembocando a maior parte em um fosso que separa a área urbana da agrícola. Estima-se que 60% do esforço de construção de Machu Picchu estava nas obras de drenagem para garantir que Machu Picchu durasse para sempre.

Algo que você não verá em Machu Picchu são poças de água. Mesmo com as chuvas fortes, a água é sempre drenada, até hoje.

Abaixo fotos do sistema ainda em funcionamento, tirei as fotos no dia 28/05/2016:

Essa água vem de uma nascente, passa pelo sistema por baixo de Machu Picchu e vai até o final da cidade, montanha abaixo, onde existia um reservatório.

 

E quanto a mão de obra?

Ter mão de obra necessária para uma obra deste porte poderia parecer um problema sério em qualquer projeto, mas o imperador Pachacuti resolveu isso facilmente. Pachacuti optou por um sistema de tributação, onde os Incas poderiam pagar seus tributos com trabalho físico. Rapidamente supervisores reúnem equipes numerosas e estes cidadãos operários levam enorme vantagem frente aos escravos, afinal, você pode exigir que um escravo trabalhe, mas não que ele faça um bom trabalho. Os Incas fizeram um trabalho correto e tinham orgulho do que estavam fazendo pois conseguiam perceber o benefício deste trabalho, ao invés de apenas serem forçados a trabalhar.

Isso parece ou não com projetos atuais? Temos equipes desmotivadas, trabalhando em projetos em que não acreditam e mesmo assim os gestores querem a mesma qualidade de uma equipe motivada e bem remunerada.

Os Incas construíram um reservatório para coletar água das montanhas e das nascentes. Depois, para levar a água do reservatório, os engenheiros Incas construíram canais com pedras tão bem cortadas que o fluxo de água é perfeito, com o mínimo de vazamento. Os Incas faziam tudo com o máximo de eficiência. Não desperdiçavam, não eram pessoas que jogassem fora o tempo, energia ou recursos. Faziam tudo rapidamente e tão bem quanto possível naquele momento. Será que estamos falando de um modelo ágil de 500 anos atrás? 😀

Obra perfeita então? 

Nada disso. Apesar de mais de 500 anos, chuvas e terremotos, a perfeição de Machu Picchu desafia a lógica. Porém em alguns lugares é possível encontrar falhas no projeto. Uma delas é no paredão leste do templo principal, que está afundando. Uma escavação mostrou que este paredão não foi construído com uma base de pedra como os outros locais, então o solo está sendo levado e afundando gradualmente.

13254795_10209587774513972_7251146851352974298_o

Isso não é típico das construções Incas, o que deixou os arqueólogos intrigados. Durante as obras de Machu Picchu, os Incas foram corrigindo os problemas e aprendendo com eles, mas não fizeram isso nesta parte do projeto. Porque? Não se sabe ao certo mas acredita-se que estavam sob pressão para terminar esta parte do projeto, decidindo simplificar indevidamente nesta situação.

Alguma semelhança com projetos atuais? Durante a pressão por menor custo e prazo acabamos cometendo erros graves, principalmente nos riscos do projeto, que são negligenciados. Riscos que tendem a ocorrer depois do término do projeto são os primeiros a serem ignorados. Afinal, para muitos gestores, se ele e sua equipe não estarão lá, não é mais problema deles – e sim uma oportunidade de vender ‘retrabalho’.

Ainda hoje existem pedras fora de lugar, inacabadas, que iriam para algum local do projeto. Não foram adiante devido à invasão espanhola, que acabou com o império Inca.. Assim como as grandes cidades atuais, Machu Picchu era uma cidade viva, em constante mudança com construções, demolições e melhorias. Não existiria um ‘fim’ previsto para estas construções e melhorias.

 

A história ensinou (mas não aprendemos)

Se considerarmos que os principais riscos do projeto de Machu Picchu estavam relacionados ao sistema de drenagem, veja que utilizaram 60% do esforço do projeto apenas em ações para mitigar ou diminuir os impactos destes riscos. Será que o mesmo ocorre em projetos atuais?

Vamos a alguns exemplos recentes:

Com chuvas, Campos Fidei, preparado para receber o Papa, vira um mangue

Enxurrada destrói novo asfalto da Marginal Piçarrão em Campinas

Falhas em drenagem e erosões causaram a tragédia em Mariana

 

Muitos gestores consideram a gestão de riscos como despesas. Para quê investir em algo que pode ou não acontecer? É justamente este tipo de pensamento o responsável pelo fracasso na maioria dos projetos. Outra abordagem incorreta é inserir “gorduras” no orçamento para os eventuais problemas sem realmente traçar um plano de ação. “Ah, se acontecer tenho uma reserva financeira pra isso”. Não é bem assim! Dependendo do risco, ele pode acabar com todo o seu projeto, assim como aconteceram nos exemplos acima.

Se os Incas atingiram o sucesso lá em meados de 1500 gerenciando os riscos, porque você não pode atingir o mesmo sucesso em 2016?

13305046_10209587734912982_3714538565795546897_oNa cidade histórica de Machu Picchu, lugar impressionante e inesquecível!

 

Espero que tenha gostado do artigo e da proposta desta série. Tem sugestões? Quer discutir ou se aprofundar no tema? Use os comentários! Obrigado pela leitura!

Fontes: