Terrorismo: A Gestão de Riscos após o 11/09

Estamos completando 15 anos desde o ataque de 11 de Setembro de 2001 contra as Torres Gêmeas e contra os EUA. Temos uma geração inteira que foi criada em um mundo pós 11/09. Um mundo em que a ameaça terrorista se tornou parte da vida das pessoas, modificando seus hábitos, valores e pensamentos. A chamada “Guerra ao Terror” permitiu a criação de muitas novas tecnologias, processos e procedimentos para lutar conta (e, em muitos casos, infelizmente à favor) do terrorismo.

As mudanças também foram fortes no Gerenciamento de Projetos. Nunca se falou tanto sobre Gerenciamento de Riscos, buscando novas técnicas, análises e ferramentas que permitam prevenir e impedir acontecimentos catastróficos nos projetos e com as pessoas envolvidas. Temos agora uma categoria completamente nova, a “Gestão de Riscos contra o Terrorismo“.

Terrorismo: Um Risco imprevisível e de altíssimo impacto

Em Gestão de Projetos, um risco completamente desconhecido, aquele que não fazemos absolutamente idéia alguma que pode ocorrer, é conhecido como “risco desconhecido-desconhecido” ou “unknown-unknowns”. Para estes riscos, costumamos alocar uma Reserva de Contingência nos nossos projetos para lidar com estes riscos. Cada organização define a porcentagem que irá alocar para estes riscos.

Mas a partir do momento que um risco deste tipo acontece em um projeto, ele passa a ser conhecido e pode ser identificado ou previsto em outros projetos. Assim era com o Terrorismo antes de 11/09. O terrorismo já existia há muito tempo atrás, muito antes do atentado, mas os EUA e seus habitantes sequer consideravam este risco por achar que ninguém teria coragem de realizar tal feito.

O Terrorismo é, de certa forma, similar a um desastre natural. Ambos tendem a ocorrer com certa regularidade e causar danos significativos na economia, gerando mortos e feridos. Um desastre natural tende a seguir um ‘script’. Com o terrorismo, são bombas, aviões e tiros; com desastres naturais, são furacões, tufões, terremotos, enchentes, etc.

terrorismo 911

Mas como prever um ataque terrorista?

A principal diferença entre um ataque terrorista e um desastre natural é a fonte da informação, nossa capacidade de prevê-los. Com algumas informações e cuidados, temos condições de prever quando um furacão atingirá uma cidade e tomar medidas de precaução, diminuindo o impacto que poderá ocorrer.

Mesmo após 15 anos do atentado de 11/09, ainda estamos começando a entender as condições que levam a um conflito onde um pode ferir o outro. Ainda estamos engatinhando para entender as motivações e patologias destas pessoas e é extremamente difícil prever um ataque terrorista.

Criando seu Plano de Gerenciamento de Riscos contra o Terrorismo

Apesar da grande dificuldade em prever este tipo de acontecimento, podemos aplicar algumas regras e técnicas conhecidas do Gerenciamento de Riscos da área de Gerenciamento de Projetos para tentar ao menos evitá-los ou diminuir a probabilidade de ocorrerem.

Ao invés de tratar o risco do terrorismo como um evento isolado, como por exemplo estudar como evitar os riscos para uma Olimpíada, podemos tratar os riscos como um Programa de Gerenciamento de Riscos.

Fases do Gerenciamento de Riscos contra o Terrorismo

Gráfico de 2014 mostrando a probabilidade de riscos nos países
Gráfico de 2014 mostrando o impacto do terrorismo no mundo

Além do plano geral, que falarei mais adiante no artigo, podemos ter pelo menos os seguintes processos:

  1. Identificação de Riscos   Neste processo vamos buscar examinar e determinar as potenciais fontes de perda humana e financeira no provável local onde um ataque poderia ocorrer, como por exemplo em um prédio do governo ou um marco turístico.
  2. Análise de Riscos – Realizar a Análise Qualitativa e Quantitativa, determinando em valores o quanto se perderia em caso de um atentado, identificando os riscos secundários, os riscos de menor impacto e custo além de detalhar melhor os cenários examinados.
  3. Resposta aos Riscos – Iremos planejar o que fazer com cada risco identificado, além de determinar os responsáveis por estas ações. Podem ser ações pra minimizar as chances do atentado ocorrer, diminuir o volume financeiro perdido, formas de diminuir a perda de vidas ou ainda algo que evite completamente o risco de atentado.
  4. Reservas de Contingência: Iremos solicitar os fundos necessários para lidar com os riscos identificados e com as respostas planejadas, além de uma reserva de contingência para aqueles que não puderam ser quantificados. 
  5. Monitoramento e Controle – Vamos acompanhar a implantação das respostas e monitorar as mudanças nos planos, processos, procedimentos e políticas que interfiram no risco de atentado, diminuindo ou aumentando as chances dele acontecer e fazendo os ajustes conforme necessário.

Guias voltados para o Gerenciamento de Riscos

Já existem diversos guias publicados sobre como tratar o terrorismo contra edifícios e similares. A The Federal Emergency Management Agency (FEMA) possui diversos guias, como por exemplo:

  • FEMA 426 – Reference Manual to Mitigate Potential Terrorist Attacks Against Buildings
  • FEMA 427– Primer for Design of Commercial Buildings to Mitigate Terrorist Attacks
  • FEMA 428 – Primer to Design Safe School Projects in Case of Terrorist Attacks
  • FEMA 429 – Insurance, Finance, and Regulation Primer for Terrorism Risk Management in Buildings
  • E155 – Building Design for Homeland Security

E existem diversos outros em desenvolvimento que ainda não foram publicados, além de outras empresas e instituições especializadas no Gerenciamento de Riscos contra o Terrorismo.

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Colocando o plano em prática

A forma mais comum de colocar o Plano de Gerenciamento de Riscos contra o Terrorismo em prática é dividi-lo em 3 fases:

  • Fase 1: Identificar a Ameaça e estabelecer o perímetro
    • Nesta fase buscamos identificar o tipo, fonte e a probabilidade de diferentes ameaças. Fazemos a Identificação e o Reconhecimento das ameaças, entendemos seu potencial e definimos as medidas iniciais de segurança.
  • Fase 2: Avaliação Detalhada dos Riscos
    • Usamos as informações coletadas na primeira fase para nos aprofundarmos nos riscos e descobrir onde devemos focar nossos esforços. É onde entra a Análise Quantitativa/Qualitativa.
    • É avaliado o raio do atentado e os danos de uma explosão por exemplo.
    • Avaliamos como o prédio ou local se comportaria com um atentado. Se for um prédio, como é para a evacuação? Como ele se comporta em uma explosão?
    • E em caso de ameaça biológica ou química? Existe algo no local que facilita ou dificulta este tipo de ataque?
  • Fase 3: A Gestão de Risco Acontece
    • Já identificamos os riscos, qualificamos, quantificamos e definimos as respostas para estes riscos. E agora?
    • Nesta fase implementamos as medidas de segurança do local, modificamos a segurança ou até mesmo evacuamos a população caso o local tenha um risco tão elevado que não compense continuar existindo, como por exemplo o cancelamento de um evento importante.

Lições Aprendidas

Como comentei no início do artigo, antes do atentado ocorrer, o risco de um ataque terrorismo não era considerado de maneira séria. Muitas vezes não era nem pensado! Mas agora já faz parte do planejamento da maior parte dos grandes eventos e construções.

Apesar da massiva quantidade de informações disponíveis, ainda tem um fator muito imprevisível: Não conseguimos prever corretamente o comportamento humano. Hoje vemos ataques cada vez mais elaborados e ideológicos, como ataques em boates, corridas e outros eventos. Apesar de aprendermos cada vez mais com estes acontecimentos, a perda humana continuará ocorrendo, não importa o quão bom você seja em gestão de riscos de grandes eventos.

Conclusões

É fato que precisamos levar o Risco do Terrorismo de maneira bem mais séria. A tendência da maior parte das pessoas, após passar por uma experiência destas é relaxar e baixar a guarda. Isso também acontece nos projetos. Enfrentamos os riscos, sofremos, guardamos as informações mas depois de um tempo esquecemos ou não damos tanta importância.

Um risco em um projeto vai ocorrer, você querendo ou não, sabendo dele ou não. Assim também é com o terrorismo. A grande questão é tentar descobrir quando. Neste momento pode ter alguém planejando um atentado ao mesmo tempo que você está lendo sobre isso.

O Gerenciamento de Riscos ganhou um significado completamente novo após o 11/09 e dezenas ou centenas de novas abordagens foram criadas visando mitigar ou evitar o risco de novos atentados.

Precisamos usar as tecnologias ao nosso favor e levar com seriedade os riscos dos nossos projetos, sejam eles de desenvolvimento de um novo produto ou de um grande evento que esteja sujeito ao terrorismo. Não veja a Gestão de Risco como desperdício ou como uma atividade como outra qualquer. Ela pode – e vai – salvar vidas e garantir o sucesso do seu projeto.

 

 

Referências

Internacional Risk Management Institute
Directions Magazine
XL Catlin
“Terrorism Modeling & Risk Management” – Presented at the RAA’s Cat Modeling Conference 2014